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Entrevista ao treinador Paulo Freitas

Paulo Freitas é treinador de basquetebol do Clube Desportivo Escola Francisco Franco (CDEFF) da ilha da Madeira. Possui o nível 3 de formação e aproveitando a sua passagem pela ilha do Faial, como treinador principal da equipa de seniores femininos do CDEFF que participa no Campeonato Nacional da 2ª divisão feminina, fomos ao seu encontro colocando algumas questões relativas ao seu percurso como treinador e as suas perspectivas sobre a formação e desenvolvimento do basquetebol.

  1. Gostaria que falasse um pouco de si e da sua trajetória no basquetebol.

Em 1976, num sábado que não me recordo exactamente o dia, estava eu em casa com os meus irmãos e li no Diário de Noticias uma publicação de que havia um núcleo de Minibasquete que funcionava aos domingos de manhã no Colégio dos Jesuítas. Foi-nos dado autorização, desde que fossemos à missa antes. Então o treino era das 09h00 às 12h30 e a missa das 08h00 às 08h45. A partir daí amor para a vida.

Joguei até os meus 45 anos, numa competição de veteranos, depois de passar pelas equipas do Nacional da Madeira (2ª e 1ª divisão nacional), Clube Sport Marítimo (3ª e 2ª divisão nacional – ainda não existia Liga Profissional) e União da Madeira (2ª divisão nacional). Na formação fiz o meu percurso entre o Nacional e o União.

Como treinador iniciei a carreira aos 16 anos, a verdade é que naquela altura não sabia muito bem o que era necessário para o ser, calculo que os meus jogadores tenham sofrido “um pouco“, pois era uma pessoa cheia de vontade mas muito pouco preparado. No entanto era um jovem cheio de vontade e tentava não perder nenhuma formação técnica, quer na Madeira quer no Continente. Aos vinte anos já possuía o curso de Nível 2, na altura o curso de treinadores estagiários e com 22 tirei curso de formadores aos cursos de nível 1.

Em 1996 tirei o Curso de treinadores de Nível 3 na Costa da Caparica, nessa altura trabalhava com os escalões de formação do Clube Desportivo Nacional.

Quando o meu irmão João foi estagiar para os EUA deixou vago o lugar de treinador do Nacional que estava na Liga Feminina e foram 15 anos a treinar esse Clube, tendo feito 7 anos consecutivos as competições europeias de clubes, na altura intitulado a Taça Liliana Ronchetti.

Quando o Nacional fechou o departamento de basquetebol, fui treinar 5 anos o União da Madeira e no segundo ano conseguimos levar o Clube às competições europeias, já com outro nome a Euro Cup Feminina.

Passei também um ano para o CAB na Liga Feminina, quando saí do União.

Neste momento estou no Clube Desportivo da Escola Francisco Franco desde 2012 com as equipas femininas de sub 16 e seniores femininos.

Ao nível das selecções regionais não consigo enumerar todas as que treinei, pois desde os meus 18 anos tive ligado às mesmas, com algumas interrupções no meio, mas a verdade é que foram mais de duas dezenas, o que se torna difícil de identifica-las, sendo as mais recentes, Albufeira 2016 a 2018 com as Sub 14.

Como jogador nas selecções tive em todas as do meu ano, desde os primeiros encontros nacionais de sub 14 na Cruz Quebrada, na altura só existiam 12 associações de modalidade, passando pelos jogos juvenis insulares e jogos desportivos insulares, com gratas recordações para mim, pois jogar entre as ilhas portuguesas era sempre um momento muito especial.

2- Como é que é atualmente a sua vida de treinador?

A Região Autónoma da Madeira tem sido um exemplo no que diz respeito ao apoio que é dado ao desporto, é que para além da sua função em garantir a prática desportiva à população local, vai mais longe e proporciona aos clubes e associação desportivas e culturais, a possibilidade de destacar e requisitar professores às escolas para exercerem funções técnicas nessas instituições. Como o CDEFF tem uma equipa nas competições nacionais, apresentamos um projecto e foi possível o meu destacamento da escola para o clube, o que me permite efectuar um trabalho mais próximo das atletas, com trabalho individualizado, sempre na disponibilidade das atletas. Posso dizer que treino mais individual do que em equipa, pois durante o dia chego a dar 3 treinos individuais enquanto que em equipa só treino 4 vezes por semana.

Com este destacamento o trabalho é exclusivamente para o Clube o que permite uma preparação maior da equipa para a competição, o estudo dos adversários e a preparação de toda a logística que a envolve.

3- CDEFF é um clube com poucos anos de vida (14), mas já conseguiu atingir em pouco tempo, no basquetebol, excelentes patamares nas competições nacionais e na integração de jogadoras nas seleções nacionais. Qual é a chave para este sucesso?

Há um conjunto de factores que não posso nem quero esquecer. Desde logo as atletas. Este conjunto de raparigas que treino, elas as verdadeiras embaixadoras do Clube no exterior, sempre mostraram uma qualidade acima da média. Claro que não iniciaram todas na mesma altura, mas quer eu quer a minha mulher, quer outros treinadores que com elas trabalharam, íamos em todos os momentos à procura de novos talentos, que depois de identificados eram prontamente encaminhados para o nosso projecto, falando com os pais e acarinhando-as desde o inicio. Depois tentamos sempre que uma miúda nunca venha sozinha, pois as pequenas amizades contam nas idades de formação. Depois os pais e o envolvimento que têm neste projecto, por vezes tão empenhados e interventivos que até ultrapassam algum limite, mas o seu envolvimento quando comedido é fundamental. Depois o Clube, que desde que aqui chegamos sempre percebeu que se quisermos elevar o nome do mesmo a nível nacional teria que ser pelo sector feminino.

Claro que depois do recrutamento era necessário elevar o nível competitivo das atletas e se ficássemos só pela competição regional, dificilmente atingiríamos este nível. Sempre tivemos em consideração efectuar torneios nacionais, por isso organizamos pelo sexto ano consecutivo o nosso torneio nacional, e todos os anos vamos ao exterior a torneios escolhidos pelo seu nível competitivo. Começamos a ir aos torneios da Maia, e pelo quinto ano consecutivo marcamos presença no torneio Internacional do CPN.

Mas é claro que só isso não basta. O trabalho que desenvolvemos com as atletas é fundamental. Temos um lema que é: trabalhar enquanto os nossos adversários estão a descansar. Fico sempre muito ansioso quando as interrupções letivas se aproximam, pois treinamos todos os dias, duas horas por sessão e com horários impossíveis de conseguir durante os períodos letivos.

Assim é possível sonhar.

Sonhar que posso ser melhor e sonhar que assim posso atingir os meus objectivos individuais. Se nós treinadores também ficarmos satisfeitos porque o clube nos proporcionou 3 treinos semanais; nos proporcionou 1h30 por treino; nos proporcionou 1/3 de pavilhão e se nós não lutarmos para conseguir um pouco mais, será muito difícil lá chegar. Temos de dar o exemplo.

Eu sempre fui e continuo a ser um treinador muito incómodo, pois tento que a minha equipa, as minhas atletas tenham melhores condições. É claro que tu também tens de dar muito de ti, aliás deverás ser tu a dar o primeiro passo e começa desde logo com a responsabilidade que tens em ser treinador. Não te acomodes, sê exigente, torna-te incómodo pela persistência e não tragas só problemas sem que penses numa solução. Recordo que há 3 anos atrás consegui um espaço no pavilhão, ao sábado, das 12h00 às 14h00, uma hora ´´morta´´ que ninguém a utilizava pois era hora de almoço. Consegui esse espaço e hoje já muitos o reivindicam. Fui à procura de novos espaços fora do Funchal e treinei muitas vezes a horas e locais muito complicados e sou criticado por muitos de ser muito exigente, mas a verdade é que com essas criticas e dou-me muito bem, pois a minha equipa e as minhas atletas estão em primeiro lugar. Talvez por isso tenhamos sido campeões nacionais de sub 14 e vice campões nacionais de sub 16 no mesmo ano.

Mas como é que sei que estou no caminho certo?

Quando os resultados desportivos acontecem, esses podem ser um factor objectivo do trabalho que desenvolves e é claro que ficas radiante quando vês que no ano passado tivemos a Inês Baptista na selecção nacional de sub 16, que brilhantemente subiu à divisão A da Europa; quando tens três atletas que chegaram à selecção de sub 15 nacional no Torneio Internacional de Esposende, a Cristina Freitas a Laura Silva e a Mafalda Baptista e quando tens outras 3 atletas entre as melhores 15 nacionais da selecção de sub 14, a Mafalda Baptista, a Sofia Alves e a Francisca Camacho, que já não joga connosco.

Mas a verdade é que a minha preocupação vai muito além. E aqui permite-me partilhar uma ocorrência: estava eu no clube, há cerca de três anos e recebi no email uma comunicação de uma pessoa que estava a procurar um treinador, com quem tinha trabalhado entre 1992 a 1995, e que teria visto uma entrevista e sabia que eu estava a treinar no CDEFF. Marcamos encontro era a Raquel Gomes. A Raquel treinara comigo três anos mas teve de ir viver para Coimbra. Formou-se em relações internacionais e exerce funções no Parlamento Europeu, uma diplomata que passa mais tempo fora, do que em Portugal. O que ela mais se recordava não eram os resultados desportivos, e posso dizer que fora uma geração de ouro que treinei, pois vencíamos tudo, mas o que ela mais se recordava eram alguns princípios fundamentais de conduta desportiva, lealdade, responsabilidade, etc, e que segundo ela muito a ajudaram a crescer e a ser o que nesse momento era. Para mim é claro, a minha função estava amplamente conseguida.

4- A equipa de sub14 femininos foi campeã nacional de clubes na época passada. Como é que se consegue formar jogadoras e uma equipa, estando numa ilha onde certamente não existem muitas equipas para permitir uma maior diversidade competitiva num mesmo escalão?

Pois, julgo que por colocar muita paixão no que faço.

Mas é óbvio que muitas das razões já apontei na resposta anterior e se cometermos o erro de acharmos que somos os obreiros únicos desse título não o merecemos certamente. Nunca vi esse sucesso só pelo trabalho técnico. Esse é muito importante, mas é mais do que justa a partilha com os pais, a direcção do Clube, os treinadores do mesmo, a nossa Associação e equipa técnica e às entidades Regionais.

Relembro que a competição sempre foi e será o problema das equipas da RAM, transversal a todas as modalidades, é certo, mas as soluções competitivas muito nos ajudaram. Durante 6 anos sempre tivemos duas equipas por escalão, divididas por níveis de competências, jogando muitas vezes nos escalões acima e na competição com os rapazes. Se esse foi um factor determinante, não sei, mas a verdade é que nos ajudava a melhorar.

5- Que modalidades é que possui o CDEFF. O clube tem muitos atletas no basquetebol? Quais são os objetivos da formação e quantas sessões de treino efetuam as equipas dos escalões de formação – mini12, sub14, sub16 e sub19?

Desde a sua génese o futsal foi a modalidade de referência, rapidamente ultrapassada pelo basquetebol, muito pelos resultados nacionais que vamos conquistando e neste momento possui mais de uma centena de praticantes em ambas as modalidades. A sua função era essencialmente direccionada para a formação de jovens até o escalão de sub 16, mas com a chegada dos femininos aos nacionais de seniores, esse patamar subiu e neste momento e ideia é consolidar o projecto numa dimensão nacional.

Relativamente ao número de treinos, esses vão variando de escalão para escalão e de ano para ano, pois a instalação não é nossa e está sempre sujeita à distribuição feita pela nossa Associação. Este ano temos que o Mini treina três vezes por semana, os sub 14 quatro vezes e os sub 16 também quatro vezes. Neste momento optamos por não ter sub 19, pois como temos atletas sub 16 com dupla subida de escalão e assim podem jogar nos dois escalões.

6- Quais são as maiores dificuldades que sente no seu trabalho. Tem boas condições de treino?

Infelizmente não. Julgo mesmo que uma equipa que está nas competições nacionais deveria treinar todos os dias e vi-me impotente para dar à minha equipa melhores condições de trabalho.

A começar pela nossa Associação, que achou mais importante tirar-nos um treino para colocar o Centro de Treino dessa.

Depois tentou-se no Clube alimentar todos os egos técnicos em prejuízo de quem por direito deveria ter melhores condições, mas essas opções terão resultados, e no fim fazemos a análise. Para mim as opções têm sido erradas, pois se este projecto é para consolidar, poderemos com as opções tomadas ter dado passos à retaguarda.

7- Na sua opinião, como é que deve ser a competição para os escalões de sub14, em termos de quantidade e de qualidade do seu quadro competitivo?

Há um princípio que tenho muita dificuldade em compreender nas associações mais pequenas e que é o quadro competitivo, pois sempre nos queixamos de haver poucos jogos mas de nada fazermos para os tornarmos frequentes. É verdade que estamos sempre a jogar com os mesmos, mas se já partimos com a dificuldade de ter poucas equipas, vamos é por essas a jogar muito mais. Claro que é sempre importante aproximar os níveis competitivos, misturar equipas de rapazes à competição feminina, mas o foco deverá ser sempre o de jogar muito.

8- No passado sábado, aquando da sua deslocação à nossa ilha, para participar com a sua equipa no jogo do campeonato nacional da 2ª divisão feminina com o Fayal SC, as nossas atletas de sub 14 e sub16 tiveram oportunidade de participar numa excelente sessão de treino ministrada por si. Que conselhos podem ser transmitidos às nossas jogadoras e ao basquetebol do Fayal?

Sinceramente não sei se serei a pessoa indicada para o fazer, mas tentarei daquilo que vi, transmitir algumas ideias que têm feito parte do meu dia-a-dia com as atletas, pois ao Clube a única coisa que vos poderei dizer é que deverão ser vós a descobrir as melhores soluções, porque conhecem o Clube, e se conseguem num sábado de manhã levar tantas atletas ao pavilhão é que estão certamente no bom caminho.

Às atletas:

– Paixão. Se no início de qualquer actividade as atletas ainda não o são, na verdadeira acepção da palavra, a partir do momento que escolhem a nossa modalidade, deverão dedicar-se com paixão e será da responsabilidade dos seus treinadores continuar a alimentar esse gosto.

– Compromisso – Quando as atletas assumem um compromisso deverão terminá-lo, e não desistir nunca, é que para além desse principio fundamental da vida de qualquer cidadão, está o respeito pelas colegas de equipa, pois nunca se esqueçam que o basquetebol é uma modalidade coletiva.

– Responsabilidade e disciplina – Nunca cheguem atrasadas ao treino, nem tão pouco saiam mais cedo. Se não forem vocês a educar os pais quem o fará? Nunca esqueçam que os pais exigem de vocês responsabilidade nos atos que praticam, quer que sejam disciplinados e respeitadores em tudo o que a vida impõe, então como é que poderão aceitar os atrasos, as faltas, as saídas prematuras, só por conveniência ou preguiça?

Nunca esqueçam que são eles que vos autorizam e eles tão bem sabem a amplitude do desporto.

Um treino que faltam nunca mais é recuperado, por isso tudo façam para que isso não ocorra. Faltar para estudar é o primeiro sintoma de que não gostam do que fazem. Hão-de encontrar sempre uma solução.

– Trabalho – Não fiquem à espera que o treinador chegue ao treino ou que marque uma sessão de treino. Vão jogar sozinhos ou com as amigas, vão treinar e lançar sozinhas. Fiquem no treino um pouco mais e cheguem mais cedo. Se multiplicarem as vezes que fizerem isso durante uma época, ficarão surpreendidas com o número de horas que treinaram mais do que as outras.

– Prioridades – Não sei quanto a vocês nem quero que o que aqui vos vou deixar influencie na educação que recebem, aliás esta é uma opinião de uma pessoa e não mais do que isso, mas quando trabalho com jovens praticantes lhes digo que devem ter prioridades e as que defendo são:

1º – A família, para mim, deverá estar sempre em primeiro lugar, pois ela será a nossa até o fim das nossas vidas e por isso deveremos cuidar muito bem dela.

2º A Formação académica – Nunca se esqueçam que dificilmente poderão ser jogadoras profissionais de basquetebol, agora o curso que escolherem poderá fazer parte da vossa vida até que se reformem, por isso nunca descorar as vossas responsabilidades enquanto estudantes.

3º O Basquetebol – A partir do momento em que escolheram voluntariamente esta modalidade, defendam-na o melhor que consigam.

Paulo Freitas

fayalbasket.com agradece a disponibilidade do treinador Paulo Freitas para a realização desta entrevista, bem como pelos inúmeros ensinamentos transmitidos e deseja-lhe muitos sucessos.

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